Foto: Aroldo Fernandes

 

Pela primeira vez o Grupo de Teatro Finos Trapos idealiza e executa um projeto tendo como principal objetivo lançar um olhar sensível e poético sobre o subúrbio ferroviário de Salvador. 

Desde a sua primeira formação a maioria dos membros do Finos Trapos sempre foi composta por artistas naturais do interior do Estado, especialmente a cidade de Vitória da Conquista. Desbravadores que migraram de suas cidades de origem no intuito de aperfeiçoar os conhecimentos sobre as artes cênicas e, para alguns, a busca por melhores possibilidades de trabalho.

A cidade do Salvador há longa data acolhe os membros desse coletivo que a elegeram para construírem suas moradas.

Contudo, apesar dos seus encantos, durante muitos anos o fato de estarem tão distantes de sua cultura de origem tensinou alguns conflitos de identidade poética do Grupo, pois estando na capital, alguns desses artistas não se sentiam identificados com as práticas teatrais que ali eram realizadas, especialmente com o modo predominante de organização em núcleos teatrais. Ademais, o clima, a cultura local e a poética das produções espetaculares soteropolitanas eram fortemente enraizados em um ideal de baianidade que pouco traduzia as inquietações de alguns dos artistas conquistenses. 

Nesse sentido, o imaginário cultural soteropolitano ainda não havia sido pauta de nossas narrativas e traduções espetaculares, que em sua grande maioria pauta a cultura de tradição nordestina e sertaneja, em especial a do semiárido baiano.

O pesquisador Armindo Bião (2009) explica que

Pensando em termos geográficos e climáticos, associados historicamente, chegaríamos a uma caracterização mais precisa das matrizes estéticas definidoras da baianidade e, aí, precisaríamos identificar pelo menos duas dominantes principais. Uma mais típica do litoral, mais particularmente do Recôncavo baiano e, ainda, mais especificamente, do complexo urbanístico de Salvador, e outra, igualmente muito ampla, mais típica do interior da terra, ainda que com muitas nuanças entre as zonas de transição da mata, do agreste e do sertão (p. 257).

 

O sentimento de não pertencimento dos artistas do Grupo à imagem de baianidade veiculada em Salvador é fruto direto dessas diferentes matrizes estético-indentitárias. Vitória da Conquista esta situada em uma região planáltica do semiárido baiano, precisamente a 900 km de altitude, o que propicia clima, vegetação e comportamentos culturais bastante diferenciados do que é verificado no litoral.

 Alia-se a isso o fato de a cidade localizar-se a 520 km da capital, literalmente no meio do caminho entre Salvador e os estados do Sudeste do país, especialmente Minas Gerais do qual o sudoeste baiano se avizinha e herda muitos traços culturais.

Nessa região, a cultura é profundamente conectada aos valores sertanejos e a tradição popular tem na matriz lusitana – em especial o patriarcado e os aspectos da religiosidade católica – predominante fonte de derivação. Além disso, os expoentes da arte conquistense nas diversas linguagens artísticas têm ainda hoje como principal referência estética o movimento armorial da década de 70, cuja figura emblemática mais representativa é Ariano Suassuna.

Distantes da topografia que harmonizava seu pertencimento cultural e inspirava suas identidades enquanto sujeitos-criadores, nada mais natural que uma abrupta adaptação a uma cultura diferente causasse certo estranhamento. Afinal, como afirma Stuart Hall (2003),

Como outros processos globalizantes, a globalização cultural é desterritorializante em seus efeitos. Suas compressões espaço-temporais, impulsionadas pelas novas tecnologias, afrouxam os laços entre cultura e o ‘lugar’. Disjunturas patentes de tempo e espaço são abruptamente convocadas, sem obliterar seus ritmos e tempos diferenciais. As culturas, é claro, têm seus locais. Porém, não é mais fácil dizer de onde elas se originam. (p.36.)

 

 Esse entrechoque de valores, fruto não apenas da adaptação a uma nova cultura como também das dificuldades encontradas pelos artistas dos contextos culturais regionais para sobreviver unicamente do seu ofício em suas cidades de origem, pode ocasionar três posturas distintas. A primeira delas é uma negação dos valores veiculados em suas regiões originais, buscando a aceitação social através da adequação aos signos estéticos e modos de operar das metrópoles. A segunda seria uma postura auto afirmativa, apegando-se unicamente aos valores da região de origem. Uma terceira alternativa, um tanto híbrida, seria procurar, por meio da cultura, “produzir a nós mesmos de novo, como novos tipos de sujeitos”, (HALL, 2003, p. 43), através da releitura dos signos estéticos e ideológicos predominantes nos dois lugares que então passam a compor as cartografias identitárias desses indivíduos.

 

Antiga Maria Fumaça exposta na Estação Ferroviária da Calçada, Salvador-BA

 

Com o Projeto Trilha de Estórias Nos Trilhos do Subúrbio, o Grupo de Teatro Finos Trapos celebra essa reconciliação com a capital baiana, tendo como o mote o cronótopo dos trilhos e das estações de trem, presentes tanto no imaginário de comunidades da capital quanto do recôncavo baiano e algumas cidades do sertão que são cortadas pelas malhas ferroviárias do Estado.

Ademais, a partir de um olhar poético sobre a cultura do subúrbio ferroviário, que por estar à margem do centro da cidade e delimitada demograficamente em uma zona periférica da cidade,  dialogaremos com a poética do Finos Trapos, uma vez que essa região preserva muitas características das culturas de tradição popular e das relações interpessoais comuns nas pequenas cidades do interior do Estado.

O projeto valoriza o subúrbio ferroviário enquanto paisagem urbana  e circuito de atividades artísticas e culturais. Parte das ações foram programadas para serem realizadas em espaços não-convencionais, ocupando a Estação da Calçada – porta de entrada do Subúrbio Ferroviário – com espetáculos, exposições e atividades de mediação cultural transformando-a num espaço alternativo de cultura e arte.    

Num cenário digno de cartões postais , ainda pouco explorado pelo Turismo, as Estações de Trem do Subúrbio são trajeto obrigatório de uma média diária de 20 mil  passageiros residentes em 22 bairros de Salvador. Apesar da grande densidade demográfica, a região só possui dois centros culturais, causando a invisibilidade da cultura local e o pouco contato daquela população com obras artísticas profissionais do circuito oficial.

As ações trarão benefícios aos moradores locais, em especial ao público infanto-juvenil, principal foco da maioria das atividades realizadas, que terão acesso gratuito à atividades artísticas e que poderão, no seu trajeto de casa para o trabalho, vivenciar experiências estéticas. Já para os turistas e residentes de outros bairros a ação será um belo pretexto para realizarem o ciruito Calçada-Paripe, conhecendo o subúrbio, suas belezas e encantos

Serão ao todo cinco ações desenvolvidas que envolvem processos de formação de artistas, Mostra Cênica, montagem e temporada de espetáculo infanto-juvenil e a realização de exposição fotográfica.

O projeto foi selecionado no Edital Arte em Todo Dia - Ano III, realizado pela Fundação Gregório de Mattos (FGM) da Prefeitura de Salvador e terá atividades até março de 2018.

 

Referências:

HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte-MG: Ed UFMG, 2003.

BIÃO, Armindo. Etnocenologia e a cena baiana: textos reunidos. Salvador-BA: P&A, 2009.

 

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