Repertório em Cartaz - O Vento da Cruviana (2014)

 

 

  O Vento da Cruviana (2014)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Neta – (Perdida em pensamentos) Parece que a ventania aumentou...

Avó - Né não. Esse barulho eu conheço de muito. É o Vento da Cruviana. (Sombria) Tomara que eu esteja enganada. (Breve pausa) Deve estar um frio de doer a espinha lá fora.

Trecho de O Vento da Cruviana

 

Foto: Diney Araújo

 

 

 

No final do ano de 2012, concomitante a execução das inúmeras frentes de trabalho que constituíam o Projeto “Afinações”, começamos  a ventilar a temática que viria a ser abordada no próximo projeto de montagem. Em meio ao grande número de sugestões e possibilidades, Thiago Carvalho arguiu sobre o seu encantamento pelo Conto do escritor colombiano Gabriel García Marquéz, intitulado “A Incrível e Triste História de Cândida Erendira e Sua Avó Desalmada”.

A sugestão aficionada de Thiago na ocasião, membro mais recente a integrar no Grupo – plantou nos demais a semente da curiosidade. Meses depois, fizemos uma leitura coletiva do Conto e ficamos inebriados. Saímos da primeira leitura ao mesmo tempo encantados e cheio de interrogações. Como transpor aquela narrativa rica em imagens e uma infinidade de personagens para a linguagem dramatúrgica?  Como adequar as inúmeras possibilidades cênicas do Conto para a estética característica do trabalho do Grupo?

Assim, para lidar com o desafio que se apresentava, decidimos por tomar o texto de Gabriel García Marquéz apenas como ponto de partida e fonte de inspiração para criar uma dramaturgia e encenação completamente independente do original.

Iniciamos o processo de montagem em 05 de novembro de 2013, tendo como dispositivo metodológico o processo colaborativo de criação – marca característica do Finos Trapos em todos os seus trabalhos cênicos e pedagógicos. O itinerário de pesquisa cênico-dramatúrgica se revelou doce, singelo e rico de soluções engenhosas, como, por exemplo, a centralização da ação dramática nos dois personagens essenciais, transpondo uma saga quase epopéica para uma encenação com apenas dois intérpretes. 

Foto: Leonardo Pastor.

Nessa sétima montagem de repertório do Grupo, temos como cenário o imaginário coletivo sobre o sertão. Idílico, atemporal e suspenso no tempo e no espaço. A paisagem e os elementos da natureza (o vento, o deserto, a água) marcam simbolicamente os atos do espetáculo. Assim, mais que uma paisagem natural, o sertão como metáfora abordada no espetáculo representará também a topografia das relações humanas. Uma verdadeira ilustração da ambiguidade dos nossos desejos, inquietações, desafios e fronteiras.

Até que ponto a tradição fixa valores contribuindo para que hierarquias e dicotomias sejam historicamente instituídas? Em uma tradição onde o feminino e o masculino não estão em pé de igualdade, como romper com o problema do sexismo sem ao mesmo tempo negar determinados valores culturais? As mulheres são apenas vítimas ou também contribuem para a propagação de um modelo cultural onde o masculino é tido como dominante? Em que medida os laços consanguíneos e culturais condiciona o espírito humano?

“O Vento da Cruviana” transcorre essas fronteiras sob a ótica de duas personagens, Avó e Neta. Dividida em três atos, a dramaturgia narra a saga dessas duas mulheres que se veem obrigadas a deixar o casarão em que viviam isoladas, à espera do patriarca Rudá, iniciando uma incrível jornada que transcorre as fronteiras do espírito feminino.

No argumento da peça, uma Menina moça, evocando a expressão popular, é a personificação da resiliência e capacidade do ser humano de sobreviver às adversidades.  A Avó, por sua vez, entende que como vivem numa terra em que só os homens têm direito a nome, deve se virar como pode para satisfazer as suas necessidades, o que, segundo a sua lógica, justifica suas atitudes para com a Neta, até o dia em que um grande acontecimento transforma suas vidas para sempre. Tendo o sertão e os elementos da natureza como metáfora da topografia das relações humanas, da ambiguidade dos nossos desejos, inquietações e desafios “O Vento da Cruviana” combina realidade e o elemento fantástico para ressignificar as perdas, aspirações e convenções entre mulheres de gerações diferentes.

O espetáculo estreou em 2014 em Salvador e já realizou diversas temporadas na capital e interior baiano, participou dos Festivais Mostra de Teatro Gira Sola (Ribeirão Preto-SP), Festival Ipitanga de Teatro (Lauro de Freitas-BA), e Festival de Teatro Latino-americano Fitlã (Salvador-BA). Atualmente é o único espetáculo de repertório que continua Na Estrada.

Foto: Diney Araújo.

 

 

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